Maria Beatriz de Medeiros
Palavras-chave: performance, nudez, censura.
A performance é arte tornada ação corporal efêmera, realizada no vivo ou ao vivo, isto é realizada
com a presença de perfomers, artistas e interatores (espectadores convidados à participação) ou
realizada através de novas tecnologias de comunicação, a internet. Aqui, não consideramos toda
ação (to act) performance (to perform). O que denominamos performance é arte, isto é,
voluntariamente ato que visa revelar o outro do mundo sensível e, assim fazendo, criar faíscas de
sensível inteligibilidade, entre seres humanos. Inteligibilidade sensível entendida sempre como
faísca: pedaços desgarrados de compreensão redimensionável. E o sensível inteligente como aquilo
que perdura. A sensação é aquilo que dura (DELEUZE & GUATTARI, 1991). A percepção é
aquilo que nos deixa abertos ao mundo. A performance quer tocar a percepção e ser guardada como
sensação acariciada por alguma busca de compreensão.
Não se trata de dança ou de teatro. A carga de improviso eleva a tensão. O texto pode existir, mas
não rege a ação. O corpo se coloca com tal. O outro é parte do projeto.
Assim, era uma vez uma mulher que adorava correr perigos mortais. Por isto resolveu realizar
performances artísticas, primeiramente, confrontando seu parco corpo aos imensos cartazes
publicitários de Paris. Nua, louca. Não satisfeita resolveu fazer um Doutorado sobre performance
art. Isto é, resolveu, e temeu, tornar suas ações figuras de retórica: ações, para sempre mortas como
fotografias e vídeos sem sangue, tornadas palavras alinhadas, letras desesperadamente frias
arrumadinhas como convém à academia.
Estávamos nos anos 80 e recebi uma bolsa de Mestrado do governo francês para realizar dois anos
de estudos na França, mais precisamente em Paris. No Brasil fazia gravuras, litografias, sobre papel
nobre e sobre papel ordinário. Estes eram colados nas ruas, nas paradas de ônibus, sobre cartazes
publicitários no Rio de Janeiro. E também utilizava carimbos: “Atenção, para sua segurança, este
trem somente circula com as portas fechadas”, foi o carimbo mais utilizado. Estávamos no fim da
ditadura e este texto, retirado do trem da Central do Brasil, fazia pensar. A estas ações chamava
interferências urbanas com o intuito claro de ‘ferir’. Mais tarde, revendo conceitos, passou a chamá-
las intervenção urbana, e hoje, com o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos1, com Deleuze e
Spinoza, as chama composições urbanas. Pois arte, sendo parte da vida, não fere ou inter-vém na
cidade, ela compõe. Propondo diferentes leituras do cotidiano, fazendo rever o repetitivo da vida
urbana, gerando interrogação sobre possíveis diferenças no perceber uma realidade, a arte compõe,
podendo também decompor.
O que significa que um ato é mau quando decompõe diretamente uma relação, e é bom
quando compõe diretamente sua relação com outras relações. Objeta-se que, de qualquer
forma, existe ao mesmo tempo composição e decomposição, decomposição de algumas
relações e composições com outras (DELEUZE, 2002, 42).
De 1983 a 1989, realizei diferentes composições urbanas em Paris, com diversos artistas. Mas estas
composições, aos poucos, tornaram-se performances, com Suzete Venturelli. Inicialmente, tendo
rasgado inúmeros cartazes publicitários monstros (4m/9m), começamos a vesti-los, depois a comê-
los. E nos declaramos antropófagas. Tendo deglutido a publicidade, passamos a nos comer
‘carnalmente’, como disse uma revista da época. Nos oferecemos nuas como galinha assada
(televisão de cachorro), participamos de diversos eventos de Performance, espetáculos, grandes
exposições coletivas (Plages), entre outros. Realizei também, ao vir ao Brasil de férias, em 1985 e
em 1988, performances no Rio de Janeiro. Da primeira vez, “Materfagia” foi realizada com carnes,
na Praça da Paz em Ipanema, queria fazê-la nua, mas meus amigos não recomendaram e acatei.
Vesti calcinha e sutiã vermelhos, bem ousados. A performance terminou quando um mendigo
gritou: “Esta puta não é brasileira”. Tive medo, já tinha feito a performance e não havia razão para
enrolar mais, sai. Da segunda vez, fiz um “L’ac-t est l-ouche et ment-al” (‘o ato é banal e mental’.
Frase que retirei do termo ‘accouchement’, ‘parto’ em francês). Mas preparada para o Brasil, o fiz
inteiramente vestida de lona preta. Quando semi-levantei a saia para puxar o ‘cordão umbilical’ o
público gritou “Tira, tira, tira”. Ridículo! Estávamos em uma boate na Barra da Tijuca.
Saltava aos olhos a diferença, na época entre uma realidade e outra. Nas praias européias poucas
mulheres usavam sutiã. Fazíamos as performances nuas e muitos também assim faziam
performances. No Brasil, país do carnaval, com seu falso moralismo, com seu racismo maquiado,
com seu cristianismo decadente, com seu protestantismo emergente, a nudez era castigada.1 Corpos Informáticos (2007-2009): Bia Medeiros (coordenadora), Carla Rocha, Diego Azambuja, Fernando
Aquino, Larissa Ferreira, Márcio H. Mota. Participaram do Corpos Informáticos e ainda colaboram com o
grupo: Alice Stefania Curi, Cyntia Carla, Maicyra Leão, Marta Mencarini, entre outros.
Estou falando de ações artísticas realizadas há trinta anos.
Estas performances, assim como meu trabalho artístico anterior a 1982, e a pesquisa efetuada após
1990 - data em que chego no Brasil e logo fundo o Corpos Informáticos-, abrangendo
performances, fotografias, vídeos (videosarte e vídeos-documentários), instalações, web-arte, estão
sendo apresentadas em 2008, no Brasil, no espaço cultural de um banco. Na porta de entrada foi
inscrito pelo juizado de menores: “Não recomendado para menores de 18 anos por motivo de sexo
explícito”, em Brasília. No Rio não solicitaram a placa na porta, mas toda a divulgação foi feita com
a inscrição “Não recomendado para menores de 18 anos”.
Trinta anos se passaram e o Brasil, o Rio de Janeiro, Brasília, regrediram?
E a Márcia X, que teve seu trabalho literalmente retirado da exposição em outro banco? Esta
exposição, após o escândalo no Rio de Janeiro, não foi para Brasília, conforme previsto. Os
protestos e textos sobre as manifestações que fizemos podem ser lidos no Canal Contemporâneo
(www.canalcontemporaneo.com.br). No vernissage da exposição que substituiu a exposição
censurada, nós artistas éramos uns trinta. Havia seis motos e dois carros da polícia nos esperando.
Poderia também falar das tele-performances ou performances em telepresença que o Corpos
Informáticos realizou entre 1999 e 2006, e certamente tornará a realizar. São performances
mediadas pr programas de computador que permitem a troca de imagens em movimento e sons em
tempo ‘real’ entre até 10 computadores simultaneamente. Este trabalho foi realizado em forma de
espetáculo, mas também em forma de instalação. O maior deles ocorreu na Bienal do Mercosul em
Porto Alegre, 2005. Montamos uma sala de estar, exatamente como uma sala de estar de uma casa
burguesa brasileira, digo, três sofás, cadeiras, uma estante com livros, bibelôs, quinquilharias em
geral, mesa de centro, cinzeiro, incenso etc. Nos três cantos, três computadores, on line, com uma
sala de ‘estar’ aberta para 63 dias de telepresença – árduo trabalho, pois estivemos on line em todos
os horários de abertura da Bienal. Já que se tratava de uma sala de estar real e outra virtual, onde
nos encontraríamos com os interatores na Bienal, mas também em qualquer lugar do mundo, nos
porta-retratos da sala de estar real estavam fotografias de internautas capturados em outras
performances em telepresença. Como sabemos, internautas gostam muito de sexo, então, dentre as
imagens havia algumas de pessoas buscando prazer sexual. Estas imagens foram censuradas. Na
alegação do pessoal responsável, na Bienal, foram citadas três leis, mas não me lembro exatamente.
Conseqüência: ganhamos dois mediadores em permanência, pois estando a sala de estar virtual
aberta a todos, havia necessidade de sermos mediadores, isto é, de sermos censura em tempo real.
Mas isto até foi compreensível, pois os internautas são loucos mesmo e as criancinhas felizes
precisam ser preservadas felizes.
As imagens de sexo, ‘minha coleção de sexo’, retirada da Internet, contém cerca de 300 imagens e
estão disponíveis no nosso site (www.corpos.org/teleperformance). Certo, este também pode ser
consultado na exposição atual, mas se encontra muito escondido, ou poderia ter sido retirado do ar
temporariamente sem a necessidade de fechar a exposição para menores. O que foi censurado não
foram estas imagens, pois certamente o juizado nem as achou no portal. O que foi censurado foram
as imagens que faço questão de trazer para vocês, para reflexão, sobre o que é censura no Brasil,
sobre o que é arte. Enquanto isso as criancinhas felizes européias vão tendo sua formação realizada
com todas as mulheres de Rubens, Velásquez, Courbet, Marcel Duchamp, com os irmãos Chapman
etc, e continuam felizes, certamente mais felizes que as nossas.
As imagens ‘sensuais’ da publicidade brasileira, no limite da pornografia, continuarão decompondo
relações. A arte, composição, até quando será censurada? Até quando será considerada
decomposição? O que de fato decompõe é a hipocrisia de um pobre país, não trinta, mas 300 anos
atrasado. A “Origem do mundo” permanecerá no Museu do Impressionismo em Paris.
Referências bibliográficas
DELEUZE, Gilles. Espinoza. Filosofia prática. São Paulo: escuta, 2002.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Qu’est ce que la philosophie? Paris: Minuit, 1991.





